Filha recebe visita da mãe idosa em prisão da PB toda semana: 'nunca me abandonou' - Blog do Ângelo Lima

Filha recebe visita da mãe idosa em prisão da PB toda semana: 'nunca me abandonou'



O relógio marcava seis horas da manhã. Dona Josefa, que fez 62 anos na sexta-feira (10), acorda, faz o café e se prepara para uma visita. Troca de roupa, confere se todas as sacolas estão organizadas e sai de casa, sempre de carona, às 7h. Leva o almoço e lanches para a filha Ranielle Barbosa, presa há um ano e sete meses por tráfico de drogas. Ainda sem sentença, Ranielle sequer sabe até quando ficará lá dentro. A rotina se repete todos os domingos. “Venho por ela, para não deixar ela sozinha, mas tem que vir”, disse Josefa Barbosa. 

Dona Josefa visita a filha Ranielle, presa há um ano e sete meses, todos os domingos, na Paraíba — Foto: Dani Fechine/G1

A distância entre o bairro Jardim Veneza, onde mora Josefa, e o Centro de Reeducação Feminina Maria Júlia Maranhão, no bairro de Mangabeira, em João Pessoa, é pouco mais de 12 quilômetros, mas a saudade é muito maior que a distância física.

No aniversário, Josefa não teve a filha Ranielle, hoje com 23 anos, ao lado para abraçar. Nem o filho, de 26. Os dois estão presos. Foram pegos juntos, suspeitos de tráfico de drogas. Na época, Josefa adoeceu bastante, foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento, emagreceu. Mas faz pela filha o que faria por qualquer uma das outras quatro filhas. Diz que não visita o filho pelo constrangimento da revista no presídio do Róger, também em João Pessoa.

Esse é o segundo dia das mães de dona Josefa sem Ranielle por perto. Embora outras quatro filhas tenham ficado na presença dela, não há ânimo para comemorar a maternidade se todos não estão completamente reunidos. Pela saudade, pelo cuidado e pelo carinho, Josefa visita a filha toda semana, há um ano e sete meses.

Dona Josefa se despede da filha, junto com o neto, de cinco anos, no Centro de Reeducação Feminina Maria Júlia Maranhão, em João Pessoa — Foto: Dani Fechine/G1

14 de setembro de 2017
Essa data ficou marcada nas vida de Ranielle e Josefa. Foi o dia em que a filha da senhora de 62 anos, o filho e o genro, foram presos em casa, por tráfico de drogas. Nada foi apreendido no local, conforme conta Ranielle, mas eles tinham, de fato, envolvimento com esse tipo de crime. A prisão, feita pela Polícia Civil, aconteceu no Bairro das Indústrias.

Dona Josefa, que jamais esperou ver os filhos fora do seu ninho e atrás de grades, passou mal. Chorou muito e foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento, de onde só saiu de madrugada, uma desacreditada. Emagreceu muito durante esse tempo.

'É nas horas boas e horas ruins'
Sempre quando vai ao presídio, Josefa se organiza bem, para não ter nada para fazer aos domingos. A falta da filha é sentida, inclusive, na rotina. Era Ranielle que a ajudava nos serviços domésticos e era também essa filha que a acompanhava em tudo. Eram unidas como, de fato, são hoje.

Embora morasse sozinha, Ranielle vivia na casa da mãe, ajudando e fazendo companhia. A novela era um programa garantido. E os almoços preparados pela mãe também nunca foram dispensados.

Dona Josefa ao lado da filha Ranielle, no Centro de Reeducação Feminina Maria Júlia Maranhão, em João Pessoa — Foto: Dani Fechine/G1

A mãe talvez não tenha passado pela mesma dureza do relacionamento, quando jovem. Mas criou sozinha os seis filhos que teve. O pai foi embora e toda responsabilidade ficou a cargo dela. Conselhos não faltaram, mas para Ranielle foi difícil escutar. Embora trabalhasse, tivesse sua própria renda, ver o dinheiro chegar fácil em sua mão foi tão tentador, que quando percebeu, já estava envolvida no tráfico de drogas.

Presa provisória, já passou por três audiências, mas ainda não sabe a pena que vai cumprir. Após seis meses de prisão, conseguiu um trabalho e hoje é “chamadora” dentro do Júlia Maranhão. Ela fica com as listas das pessoas que vão receber advogados, feiras das famílias, atendimento médicos, e é encarregada de chamá-las nas celas no momento certo. Por isso, fica em um pavilhão diferente, mais tranquilo.

Quando a mãe chega para visitá-la, o abraço é seguido da bênção. “Nunca deixo de pedir. Nunca me abandonou, é nas horas boas e ruins”, confessa. Elas conversam, almoçam, Ranielle recebe as novidades do mundo lá fora e, por volta das 15h, dona Josefa volta para o Jardim Veneza.

“Eu não ligo pra o que ela traz, é mais a presença, o conforto de uma palavra, porque tem muita gente aqui que prefere que as mães venham pelas sacolas, e eu não, é mais para saber o que está acontecendo na rua, confortar o coração, saber que minha família está bem. Difícil viver nesse lugar, mas tem que passar a viver e aprender as coisas boas e coisas ruins”, disse Ranielle.

Futuro incerto
Agora, a única solução de dona Josefa encontra é continuar dando conselhos à filha. “Sempre deu, mas a gente nunca escutou”, declara Ranielle. E continuar com as visitas, até quando puder.

Se pudesse voltar atrás, Ranielle faria tudo diferente. “Quando eu sair daqui eu quero abraçar toda minha família, todos os meus sobrinhos, pedir desculpa por não ter escutado ninguém, lutar para arrumar um emprego para ser alguém melhor e poder ajudar minha mãe. Aqui eu não posso ajudar, mas quando eu sair eu quero dar uma vida melhor pra ela”, enfatiza.

Enquanto isso, dona Josefa continua aqui, do lado de fora, cuidando das outras filhas e dos 13 netos que, inclusive, a chamam de mãe. Todos. Dona Josefa é mãe. E gosta disso. Vive por eles, para eles.

A fase em que morou sozinha é recente. Ranielle se casou aos 13 anos com um homem de 22. Com ele, viveu seis anos. Mas o risco que corria era maior do que o amor. Com muitas brigas e um sentimento muito obsessivo, resolveu se separar. “Ele sempre foi muito de mandar em mim, disse que se eu deixasse ele, ele ia me matar, se eu ficasse com ele, ia acontecer coisa pior”, revelou.

Fonte: G1
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